Dia Nacional do Livro: conheça a história de Ademir Takara, o responsável pelo acervo da primeira biblioteca pública do país especializada em futebol

Engana-se quem pensa que o passeio pelo Museu do Futebol, em São Paulo, oferece apenas exposições para viajar ao passado e resgatar as memórias do esporte mais popular do país. Há muito mais do que isso para quem percorre os mais de seis mil metros quadrados que ficam anexos às arquibancadas do tradicional Estádio do Pacaembu. Poucas pessoas sabem, mas o museu abriga também um vasto acervo bibliográfico, com mais de 15 mil itens, para pesquisas sobre o assunto. São toneladas de materiais que dão vida às prateleiras do Centro de Referência do Futebol Brasileiro (CRFB), a primeira biblioteca pública do Brasil especializada em futebol. É um verdadeiro paraíso para quem tem interesse em conhecer a produção literária sobre a história do nosso futebol.  

Inaugurado em 2013, o espaço conta com publicações de renomados escritores e pesquisadores do mundo esportivo, que transportam a magia de dentro das quatro linhas do campo para as páginas de mais de seis mil livros. E, se tem uma pessoa que vive e respira esse universo particular, que mistura literatura com futebol, essa pessoa tem nome e sobrenome: Ademir Takara. O bibliotecário de 41 anos abriu as portas do CRFB para uma conversa especial comigo, em homenagem ao Dia Nacional do Livro, celebrado no dia 29 de outubro. Neto de japoneses, são-paulino, fã de Rogério Ceni e Careca, Ademir revela detalhes sobre a sua vida pessoal, fala sobre sua paixão por livros e futebol e conta também como foi a sua carreira até chegar na biblioteca de um dos museus mais visitados do Brasil. 

Ademir recebe visita de Lugano, ídolo e atual dirigente do Tricolor Paulista

 

Confira abaixo a entrevista completa com Ademir Takara:

Guilherme Barbosa – De onde surgiu sua paixão por livros e futebol?

Ademir Takara: Sempre gostei muito de futebol, desde pequeno. Gostava de guardar a página de Esportes dos jornais, sendo assim a leitura sempre uma constante. E sempre tive muitos livros em casa, didáticos e literatura, além de gibis. Ler nunca foi uma dificuldade e nunca foi uma obrigação.

GB: Trabalhar como bibliotecário do Museu do Futebol no Brasil, o país do futebol, era seu sonho? Você sempre pensou em trabalhar com algo relacionado ao futebol?

AT: Foi uma ideia que surgiu naturalmente. Eu gostava de registrar numa lista os livros de futebol que ia encontrando por aí. Então, eu sabia que havia uma produção relevante, embora pequena. Em 2008, entrei no Centro Educacional Unificado (CEU) Quinta do Sol como bibliotecário, mas ligado à Secretaria de Educação. Enquanto isso, na Secretaria de Cultura, foram criadas algumas bibliotecas temáticas sobre cinema, literatura fantástica, poesia, etc. Foi natural começar a sonhar com uma biblioteca de futebol ou, quem sabe, de esportes.

GB: Você cursou História (1995) e Biblioteconomia (2002) na Universidade de São Paulo (USP). Quando você entrou na faculdade, você já pensava em direcionar seus estudos para o futebol?

AT: Todo o processo foi meio aleatório. Quando eu terminei o Ensino Médio, prestei o vestibular para Administração, mas não passei. Fiquei um ano meio à toa, trabalhando na oficina de costura da família. Então, minha mãe falou para prestar o vestibular de novo, mas que escolhesse alguma coisa que gostasse. Sempre gostei de História e, de repente, estava lá na USP. Ao mesmo tempo, continuei com aquele hobby de caçar livros de futebol. Achei alguns livros nas bibliotecas da Faculdade de Filosofia, Letras, Ciências Humanas (FFLCH), mas o maior acervo estava mesmo na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE). Então, eu vivia lá, pegando livros emprestados. Em termos profissionais, não pensava em ser professor e achava cedo tentar uma pós-graduação. Então, olhando os classificados do jornal, percebi que quase toda semana tinha anúncio de vaga para estagiário de Biblioteconomia. Foi aí que tive a ideia de ser bibliotecário. Afinal de contas, gostava muito de ler. Por que não trabalhar com livros? No final, consegui unir o hobby com a faculdade. Usei minha lista de livros de futebol como tema para o trabalho de conclusão de curso: “Produção bibliográfica sobre futebol no Brasil (1906-2006): análise bibliométrica”.

GB: Como você se sente trabalhando diariamente com a preservação da história do futebol, um dos elementos culturais mais expressivo na vida dos brasileiros?

AT: É sempre muito entusiasmante. Mas, talvez, o mais estimulante são as pessoas que vamos conhecendo: colegas de trabalho, pesquisadores, torcedores, jornalistas, estudantes, todos se dedicando a este resgate diário da história e, por que não, das emoções adormecidas do futebol.

GB: O que te motivou a aceitar o desafio de trabalhar no CRFB?

AT: O principal foi a possibilidade de montar uma biblioteca especializada em futebol, aliás a primeira biblioteca pública especializada em futebol no Brasil. Quem não ia querer participar de algo assim?

GB: Como você concilia seu trabalho com sua paixão por futebol e livros?

AT: A vantagem de se trabalhar com algo que se gosta tanto quanto o futebol é que trabalho e lazer se misturam o tempo todo. Então, um jogo que assisto hoje pode ser o tema de pesquisa de algum universitário amanhã. Um livro que li pode ser a peça fundamental para um colega de trabalho terminar uma apresentação. Costumo dizer que sou bibliotecário 24 horas por dia, porque a informação está sempre fluindo, indo e voltando por todos os meios possíveis, procurando as pessoas certas que são aquelas que precisam dos dados.

GB: Qual é a história da sua família? E como ela contribuiu para despertar sua paixão por livros?

AT: Meus avós são de Okinawa, no sul do Japão. Eles vieram trabalhar no campo. Meus pais também foram agricultores e depois trabalharam com confecção de roupas. Na cultura japonesa, o estudo sempre é muito importante. Mesmo no caso dos meus pais e tios que pararam os estudos no ensino fundamental, a meta sempre foi que os filhos concluíssem, no mínimo, o Ensino Médio. Hoje, quase todos da minha geração têm curso superior. Então, o estímulo à leitura foi inerente à dedicação aos estudos. Lembro do meu avô, lendo o jornal e me perguntando o que significavam as palavras. Ele conseguia ler, mas não entendia bem o português.

GB: Quais são os cinco livros que um amante do futebol não pode deixar de ler?


Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha (Ruy Castro)

“Não é apenas uma biografia, é A Biografia. Não só apresenta a dimensão heróica e humana de um dos maiores jogadores da história do futebol como também mostra muito claramente o que é o Brasil, e o futebol, dos tempos de Garrincha.”

Link de acesso ao Banco de Dados do Museu do Futebol
Editora: Companhia das Letras
Ano: 1995

 

 

O negro no futebol brasileiro (Mário Filho)

“Para além das discussões sociológicas é um texto muito bom, muito gostoso de ler e expõem várias mazelas do futebol brasileiro, presentes há muito tempo.”

Link de acesso ao Banco de Dados do Museu do Futebol
Editora: Mauad X
Ano: 2013 – 5ª edição

 

 


Anatomia de uma derrota (Paulo Perdigão)

“Gosto muito da pesquisa feita pelo jornalista Paulo Perdigão, se debruçando sobre os jornais da época, a transcrição da final e ainda, de brinde, o roteiro do filme Barbosa, um curta belíssimo e dramático inspirado no camisa 1 brasileiro.”

Link de acesso ao Banco de Dados do Museu do Futebol
Editora: L&PM
Ano: 2000 – 2ª edição

 

 

História do futebol no Brasil 1894-1950 (Thomaz Mazzoni)

“Esse é o livro mais básico, detalha história do futebol brasileiro com muitas referências de jornais e documentos de época.”

Link de acesso ao Banco de Dados do Museu do Futebol
Editora: Leia
Ano: 1950

 

 

Futebol ao sol e à sombra (Eduardo Galeano)

“Um livro que pode ser apreciado por todos, independentemente de se gosta ou não de futebol, uma coletânea de crônicas do Galeano, escritor uruguaio e fanático por futebol.”

Link de acesso ao Banco de Dados do Museu do Futebol
Editora: L&PM
Ano: 2010

 

 

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