Opinião: negar o uso dos árbitros de vídeo é dizer “não” à evolução

Os cartolas do futebol brasileiro disseram “não” ao progresso. Doze dos vinte representantes dos times brasileiros que vão disputar a elite do futebol nacional em 2018 negaram o uso do árbitro de vídeo em jogos do Brasileirão. Os dirigentes das equipes que optaram por não apoiar a implantação da tecnologia justificaram seus votos com base no alto custo para operacionalizar o sistema. A decisão foi tomada na última segunda-feira (5/2), na sede da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no Rio de Janeiro.

A entidade máxima do futebol brasileiro fez um levantamento que indica que o novo recurso impactaria em investimentos na casa dos R$20 milhões para os 360 jogos do Brasileirão. Se este valor fosse dividido igualmente pelos clubes da Série A, o aporte que cada time deveria fazer seria de aproximadamente R$1 milhão. De acordo com reportagem da Folha de São Paulo, a questão financeira foi o grande empecilho para, pelo menos, 11 dos 20 clubes da elite do futebol nacional. A justificativa é compreensível, mas há algumas questões cruciais que precisam ser levadas em consideração neste debate.

A primeira delas é: a CBF deveria, sim, assumir a responsabilidade de arcar com os custos de implantação da nova estrutura de arbitragem das partidas. Afinal, é a entidade que tem o dever de organizar e operacionalizar a competição. Os portugueses, por exemplo, seguem essa lógica: é a Federação Portuguesa de Futebol (FPF), entidade equivalente à CBF em Portugal, quem cuida de todo o processo de implantação da nova tecnologia nos jogos do campeonato português. O mais curioso disso é que, de acordo com o repórter Mamede Filho, do Sportv, o uso do árbitro de vídeo por temporada custa R$4 milhões aos cofres lusitanos, um quinto do orçado pela CBF.

O que também não pode ser esquecido é que as discussões sobre testar o recurso de vídeo para os árbitros nos jogos do Campeonato Brasileiro surgiram da própria CBF, após o polêmico gol de mão do atacante Jô (ex-Corinthians). O gol irregular garantiu a vitória do clube do Parque São Jorge sobre o Vasco, em partida válida pelo segundo turno do Brasileirão de 2017, e foi a gota d’água para um forte clamor de dirigentes brasileiros contra os erros de arbitragem. A resposta foi rápida: Marco Polo Del Nero, presidente da CBF, anunciou que testes com árbitros de vídeo seriam promovidos, mas, por razões técnicas, precisaram ser adiados.

Outro ponto que deve ser levado em consideração é a respeito da insensatez dos cartolas brasileiros. É inegável que os custos da implantação dos árbitros de vídeo deveriam ser assumidos pela CBF. Mas, caso a única alternativa para viabilizar o uso da tecnologia seja transferir essa despesa para os clubes, é necessário que seus dirigentes tenham lucidez para entender que investir na implantação dos árbitros de vídeo é investimento, e não gasto. Afinal de contas, seria possível precificar o “custo” de um gol mal anulado que impediu a conquista de uma vaga na Libertadores ou, quem sabe, de um título?

Até porque, em circunstâncias que poderiam custar o título da competição mais importante do país, seria difícil acreditar que algum dirigente confiaria piamente na capacidade de dois olhos humanos para julgar o certo e o errado. Seria, no mínimo, negligenciar a existência da tecnologia. Não à toa é que esportes como tênis, basquete, vôlei e futebol americano já regulamentaram o uso da máquina em cada modalidade. O investimento nos árbitros de vídeo é uma ação concreta para prevenir erros de arbitragem, que perseguem o futebol brasileiro há décadas.

A terceira – e última – questão que deve ser ponderada é a respeito da teoria que defende que a implantação dos árbitros de vídeo poderia extinguir a polêmica “discussão de bar”. Acreditar que as tradicionais “resenhas” de bar podem acabar é pura inocência. As polêmicas sempre vão existir. Sempre haverá assuntos polêmicos para serem discutidos. Em vez de pênaltis, cartões ou impedimentos que foram (ou não) assinalados, os assuntos que vão acompanhar as cervejas geladas são os eventuais erros dos juízes que solicitaram (ou não) a consulta aos vídeos. “Discussão de bar” e “futebol” é que nem o arroz com feijão: é uma combinação que sempre vai fazer parte da cultura brasileira.

Embora hajam diversos argumentos favoráveis ao uso do recurso de vídeo na arbitragem dos jogos do Campeonato Brasileiro, é essencial também que se tenha a consciência de que a implantação deste recurso não é a solução para extinguir os erros dos juízes da elite do futebol nacional. Já é de se esperar que a CBF “bata muita cabeça” até encontrar o modelo ideal de regulamentação dos árbitros de vídeo no Brasil. Há um longo caminho  a ser percorrido para entender de que forma a tecnologia pode ser usada como aliada.

Com o veto do uso dos árbitros de vídeo nos jogos do Brasileirão, nos resta agora ficar de olho em como serão os jogos das quartas de finais da Copa do Brasil – e as fases consecutivas -, que serão usados como “cobaia” deste recurso. Uma coisa é certa: polêmica não vai faltar.

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